A franquia "Monstros", da Netflix, se tornou um dos maiores fenômenos do true crime nos últimos anos, reposicionando personagens históricos - de Jeffrey Dahmer a Ed Gein - no centro de narrativas densas, perturbadoras e profundamente críticas.
No entanto, um nome recente, explosivo e amplamente debatido na mídia internacional quase entrou para essa lista: Luigi Mangione, o cientista de dados ítalo-americano acusado de assassinar o CEO da UnitedHealthcare, Brian Thompson.
A ideia não só existiu como avançou para o papel-rascunho! Três episódios chegaram a ser escritos. Mas Ryan Murphy, cocriador da antologia ao lado de Ian Brennan, explicou por que o caso perdeu força dentro da sala de roteiristas e por que Mangione ficou de fora do quarto ano da produção, que seguirá para o controverso e mítico caso de Lizzie Borden.
Em entrevista à Variety, Murphy foi direto ao analisar por que descartou o arco protagonizado por Mangione. O caso tinha gerado interesse, sim, mas não o bastante para sustentar a espinha dorsal dramática que a série exige.
O showrunner explicou: “Escrevemos três episódios sobre Luigi, mas os pais dele não estavam falando, o julgamento não avançou e não havia uma narrativa densa o bastante”. Segundo ele, a falta de elementos concretos, depoimentos e avanços judiciais criava um vazio dramático impossível de preencher sem comprometer a integridade editorial do projeto.
E Murphy foi ainda mais categórico ao resumir o ponto central da hesitação: “No fim, era apenas ganância corporativa e isso é um tema, mas não sustenta uma temporada”. Eita!
O assassinato de Brian Thompson, em dezembro de 2024, transformou Mangione - até então um profissional brilhante e recluso - em um símbolo controverso. Parte da internet o transformou em anti-herói; outra parte exigia justiça imediata. Havia hashtags, protestos, memes, mercadorias online e até comparações com personagens de cultura pop.
Essa explosão cultural faria com que Mangione fosse um candidato evidente para os padrões de "Monstros", série que não se limita a explorar crimes, mas também seus efeitos socioculturais. Ainda assim, faltavam elementos essenciais: testemunhos familiares, documentos processuais avançados e, principalmente, conclusões judiciais que permitissem interpretar os eventos com profundidade.
Ryan Murphy afirmou, em diversas ocasiões, que cada temporada da franquia precisa fazer mais do que narrar um crime, deve refletir sobre estruturas sociais, preconceitos e mecanismos institucionais que permitiram ou moldaram aqueles acontecimentos. Não basta um assassinato terrível. É preciso um subtexto capaz de movimentar conversas mais amplas.
E, embora a morte de Thompson tenha repercussão nacional e diálogo direto com o debate sobre corporações de saúde, práticas de seguradoras e desigualdades sistêmicas, o caso ainda carece de uma moldura histórica, testemunhal e emocional que permita construir algo tão robusto quanto as histórias de Dahmer, dos Menendez ou de Ed Gein.
Com a exclusão do arco sobre o suposto assassino de Thompson, Murphy seguiu para outro caso igualmente icônico: Lizzie Borden, absolvida do assassinato do pai e da madrasta em 1892, mas eternizada como símbolo cultural de violência, misoginia e histeria moral vitoriana.
A quarta temporada já está em gravação, com Ella Beatty no papel principal, e deve estrear em 2026. Segundo Murphy, a história vai além do crime: examina como gênero, poder e percepção pública moldaram o destino de Borden e por que o caso continua vivo mais de um século depois.
Nada indica, por enquanto, que Luigi Mangione voltará a ser considerado para futuras temporadas. O próprio Murphy afirmou que a franquia está interessada em casos contemporâneos para além de 2026, mas apenas quando houver material sólido o suficiente para uma dramatização responsável. Até lá, Mangione permanece como uma curiosidade!
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